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Ao trabalhar com famílias empresárias de diferentes setores, percebi que o maior desafio não está em organizar estruturas de governança ou em planejar a sucessão de forma técnica. O verdadeiro ponto de inflexão reside na capacidade de alinhar valores, histórias e aspirações entre gerações. É como se cada família fosse uma orquestra, onde o maestro não é uma pessoa, mas um propósito compartilhado. E, como em toda orquestra, a harmonia depende não apenas da partitura, mas da escuta atenta entre os músicos.

Governança, nesse contexto, é mais do que um conjunto de regras ou conselhos administrativos. É um espaço de diálogo estruturado, onde as vozes de diferentes gerações encontram eco e convergem para decisões que transcendem o presente. Famílias empresárias que prosperam reconhecem que o patrimônio mais valioso não está nos ativos financeiros, mas na capacidade de perpetuar vínculos e valores. Essa percepção é reforçada por inúmeras experiências que vivenciei, onde o sucesso de uma transição ou de uma decisão estratégica esteve diretamente ligado à qualidade das conversas e ao alinhamento entre os membros da família.

Lembro-me de uma família do agronegócio com quem trabalhei. Três gerações estavam envolvidas no negócio, mas cada uma tinha uma visão distinta sobre o futuro. O patriarca via a terra como um legado sagrado, enquanto os filhos enxergavam oportunidades de diversificação, e os netos, por sua vez, queriam explorar tecnologias disruptivas. O ponto de convergência não veio de uma decisão técnica, mas de uma conversa franca sobre o que a terra significava para cada um deles. Foi nesse momento que entenderam que o verdadeiro legado não era a terra em si, mas a capacidade de inovar sem perder de vista suas raízes.

Esse equilíbrio entre tradição e inovação é uma constante nas famílias empresárias. Enquanto a tradição oferece estabilidade e identidade, a inovação garante a adaptação às mudanças do mercado e às novas demandas das gerações mais jovens. Famílias que conseguem integrar essas duas forças desenvolvem uma resiliência única, que as permite atravessar crises e se reinventar sem perder sua essência.

Autores como Renato Bernhoeft e John Davis, referência global no tema de famílias empresárias, frequentemente destacam que a sucessão não é um evento, mas um processo contínuo. “Transformar uma empresa familiar em uma verdadeira família empresária requer equilíbrio entre o legado […] e o aprendizado de novas habilidades…” (Renato). E concordo plenamente. E esse processo exige mais do que planejamento patrimonial ou tributário. Ele demanda coragem para enfrentar questões delicadas, como o papel de cada membro na continuidade do negócio ou como lidar com conflitos que, muitas vezes, são mais emocionais do que racionais.

Ao refletir sobre tudo isso, gosto de pensar na metáfora de uma árvore. O tronco representa os valores que sustentam a família; as raízes, a história e as tradições; e os galhos, as novas gerações que se expandem em direções diferentes, mas sempre conectadas à base. A governança, nesse sentido é o solo fértil que nutre essa árvore, garantindo que ela cresça de forma saudável e resiliente, mesmo diante das tempestades.

Finalizo com uma reflexão que sempre compartilho com as famílias que acompanho: o verdadeiro legado não é o que deixamos para os outros, mas o que construímos com eles. E, nesse processo, a governança é o fio condutor que transforma histórias individuais em uma narrativa coletiva, capaz de atravessar gerações.

Por Ronaldo Behrens

Sócio ABC / PhD. PXLeader / Professor FDC